Eu Indico-O Poder do Mito


Este é um trecho extraído do livro do Joseph Campbell, O Poder do Mito.Esse trecho fala de ir atrás dos seus sonhos, como todo mundo diz, ou como diz o Campbell, ir atrás da sua bem-aventurança (ou enlevo).

Quem ainda não leu, eu recomendo!!!!




MOYERS: Podem os ocidentais apreender a experiência mística que ultrapassa a teologia? Quando se está preso à imagem de Deus, numa cultura em que a ciência determina a percepção da realidade, como é possível vivenciar esse nível superior de que falam os xamãs?


CAMPBELL: Bem, as pessoas chegam a vivenciá-lo. Aqueles que o conseguiam, na Idade Média, eram quase sempre queimados como heréticos. Uma das grandes heresias do Ocidente é aquela pronunciada por Cristo: “Eu e o Pai somos um”. Ele foi crucificado por dizer isso. Na Idade Média, novecentos anos depois de Cristo, um grande místico da seita sufi disse: “Eu e meu Bem amado somos um”, e também foi crucificado. Quando caminhava para a cruz, orou: “Ó meu Senhor, se você tivesse ensinado a essas pessoas o que me ensinou, eles não fariam isso comigo. E se você não tivesse me ensinado, isso não aconteceria comigo. Abençoados sejam o Senhor e todas as suas obras”. Outro ensinamento sufista diz: “A função da comunidade ortodoxa é propiciar ao místico a satisfação do seu desejo, que é a união com Deus, através da mortificação e da morte”.

MOYERS: O que é que minimizou essa experiência, hoje?

CAMPBELL: É característico da democracia que a regra majoritária seja entendida como eficaz, não só em política, mas em idéias. Em idéias, é claro, a maioria está sempre errada.

MOYERS: Sempre errada?

CAMPBELL: Em assuntos desse tipo, sim. A função da maioria, no que diz respeito às coisas do espírito, é tentar ouvir e abrir se para alguém que tenha tido uma experiência para além de nutrição, proteção, procriação e riqueza. Você já leu Babbitt, de Sinclair Lewis?

MOYERS: Há muito tempo.

CAMPBELL: Você se lembra da última frase? “Nunca fiz aquilo que queria, em toda a minha vida.” Este é um homem que nunca perseguiu a sua bem aventurança. Bem, eu ouvi efetivamente essa frase, quando ensinava no Sarah Lawrence College. Antes de me casar, eu costumava sair fora para comer em restaurantes da cidade, no almoço e no jantar. Quinta feira à noite era a folga das empregadas, em Bronxville, de modo que muitas famílias saíam para comer em restaurantes. Uma bela noite, eu estava em meu restaurante favorito e na mesa ao lado havia um pai, uma mãe e um menino magrinho, de uns doze anos de idade. O pai disse ao menino: “Tome o seu suco de tomate”. E o menino respondeu: “Não quero”. E o pai insistiu, com voz mais alta: “Tome o seu suco de tomate”. A mãe interveio: “Não O obrigue a fazer o que ele não quer”. O pai olhou para a mulher e disse: “Ele não pode levar a vida fazendo O que quer. Se fizer só o que quer, morrerá. Veja o meu exemplo, eu nunca fiz nada do que quis, em toda a minha vida”. E eu pensei: “Meu Deus, isso é Babbitt encarnado!” Esse é o homem que nunca perseguiu a sua bem aventurança. Ainda que você seja bem sucedido na vida, pense um pouco: Que espécie de vida é essa? Que tipo de sucesso é esse que o obrigou a nunca fazer nada do que quis, em toda a sua vida? Eu sempre recomendo aos meus alunos: Vão aonde o seu corpo e a sua alma desejam ir. Quando você sentir que é por aí, mantenha se firme no caminho, e não deixe ninguém desviá-lo dele.

MOYERS: O que acontece quando você persegue a sua bem aventurança?

CAMPBELL: Você atinge a bem aventurança. Na Idade Média, uma imagem predileta, que ocorre em muitos, muitos contextos, é a da roda da fortuna. Existe o eixo da roda e existe a borda da roda. Por exemplo, se você estiver preso à borda da roda da fortuna, você estará ou acima, no caminho descendente, ou abaixo, no caminho ascendente. Mas se estiver no eixo, você estará no mesmo lugar o tempo todo, no centro. Este é o sentido do voto de casamento – eu a aceito na saúde ou na doença, na riqueza ou na pobreza: no caminho ascendente ou no descendente. Se eu a tomo como O meu centro, minha esposa é a minha bem aventurança, não a riqueza que possa trazer me, não o prestígio social, mas ela, em si. Isso é que é perseguir a bem aventurança.

MOYERS: De que modo poderíamos estabelecer contato com esse manancial da vida eterna, essa bem aventurança que está exatamente aí?

CAMPBELL: Estamos vivendo, o tempo todo, experiências que podem, ocasionalmente, conduzir a isso, uma breve intuição de onde está nossa bem aventurança. Agarre a. Ninguém pode dizer lhe o que será. Você precisa aprender a reconhecer a sua própria profundidade.

MOYERS: Quando você reconheceu a sua?

CAMPBELL: Ah, quando era criança. Nunca deixei ninguém me desviar do curso. Minha família sempre me ajudou, o tempo todo, a realizar apenas o que eu mais profundamente, verdadeiramente, queria fazer. Nunca senti que isso pudesse ser um problema.

MOYERS: Como podemos nós, que somos pais, ajudar nossos filhos a reconhecer a sua bem aventurança?

CAMPBELL: Você precisa conhecer seu filho e estar sempre muito atento a ele. Você pode ajudar. Quando ensinava no Sarah Lawrence, eu tinha uma entrevista individual com cada um dos meus alunos, pelo menos uma vez a cada quinze dias, de cerca de meia hora. Pois bem, ao conversar sobre as suas leituras obrigatórias, quando você toca em alguma coisa que realmente desperta a reação do aluno, você pode ver que os seus olhos se abrem e a postura física muda. Uma possibilidade de vida se abriu ali. Tudo o que você pode dizer a você mesmo é: “Espero que essa criança se apegue a isso”. Eles talvez consigam, talvez não, mas, quando conseguem, encontram a vida exatamente ali, na sala, ao seu lado.

MOYERS: E não é preciso ser poeta para chegar a isso.

CAMPBELL: Poetas são simplesmente aqueles que adotaram, como profissão e como estilo de vida, o estarem em contato com a própria bemaventurança. A maioria das pessoas se preocupa com outras coisas. Envolvem se em atividades econômicas e políticas ou se deixam engajar numa guerra que não é aquela em que estavam interessadas; nessas circunstâncias, é muito difícil manter se fiel ao propósito essencial. Trata se de uma técnica que cada um precisa desenvolver por sua própria conta. Mas muitas pessoas que vi vem naquele âmbito de interesses que podem ser chamados de triviais possuem a capacidade, que apenas aguarda ser despertada, de progredirem na direção de um âmbito mais elevado. Eu sei disso. Vi acontecer com muitos estudantes. Quando ensinava numa escola preparatória, para meninos, eu gostava de conversar com os que cogitavam sobre a carreira que pretendiam seguir. Um garoto se aproximava e perguntava: “Você acha que eu posso fazer isto? Você acha que eu posso fazer aquilo? Você acha que eu posso ser escritor?” “Ah”, eu dizia, “não sei. Você é capaz de suportar dez anos de frustração, ninguém prestando atenção a você, ou você acha que vai escrever um best seller logo na primeira tentativa? Se você tem garra para perseverar no que realmente quer, não importa o que aconteça, então vá em frente.” Então aparecia o papai e dizia: “Não, você deve estudar Direito, porque oferece muito mais perspectiva financeira, você sabe”. Bem, isso é a borda da roda, não o eixo; não é perseguir a bem aventurança. Você pretende se dedicar à fortuna ou à bem aventurança? Voltei da Europa, como estudante, em 1929, exatamente três semanas antes da quebra da Bolsa de Nova Iorque, de modo que fiquei desempregado por cinco anos. Simplesmente não havia emprego. Para mim, foi um período esplêndido.

MOYERS: Esplêndido? O auge da Depressão? O que havia de maravilhoso nisso?

CAMPBELL: Eu não me sentia pobre, apenas sabia que não tinha dinheiro. As pessoas eram muito boas umas com as outras, naquele tempo. Por exemplo, descobri Frobenius, que de repente me entusiasmou, e eu quis ler tudo o que ele tinha escrito. Então simplesmente fiz a encomenda a uma livraria que tinha conhecido, em Nova Iorque, e eles me enviaram os livros, dizendo que não precisaria pagar, até conseguir um emprego – o que aconteceu quatro anos depois. Havia um velhinho maravilhoso, em Woodstock, que tinha uma propriedade com uns quartinhos que ele alugava por vinte dólares ao ano, pouco mais, pouco menos, a qualquer jovem que, na opinião dele, tivesse algum futuro nas artes. Não havia água corrente, apenas aqui e ali um poço e uma bomba. Ele dizia que não mandava instalar água corrente porque não gostava do tipo de gente que isso atraía. Foi lá que eu realizei a maior parte das minhas leituras básicas. Foi esplêndido. Eu estava no encalço da minha bem aventurança. Bem, eu cheguei a esta idéia de bem aventurança porque em sânscrito, a grande linguagem espiritual do mundo, há três termos que representam a margem, o trampolim para o oceano da transcendência: Sat, Chit, Ananda. A palavra Sat significa “ser”; Chit significa “consciência”; Ananda significa “bem aventurança” ou “enlevo”. Pensei: “Não sei se minha consciência é propriamente consciência ou não; não sei se o que entendo pelo meu ser é o meu próprio ser ou não; mas sei onde está o meu enlevo. Então, vou apegar-me ao meu enlevo, e isso me trará tanto a minha consciência como o meu ser”. Creio que funcionou.

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